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Deixou prevalecer seu coração de mãe e
decidiu acompanhar os filhos e os irmãos na maior luta armada da América
Latina.
Serviu de enfermeira voluntária, enfrentou a morte de perto para
salvar muitas vidas, inclusive de inimigos da pátria, e se tornou um
exemplo no mundo, como precursora da Cruz Vermelha no Brasil. Hoje, Ana
Néri é cultuada como a Patrona dos Enfermeiros do Brasil.
Enfermeira de almas
Ana Néri trocou a vida pacata de dona de casa
em Cachoeira pela função de salvar vidas na Guerra do Paraguai.
Na manhã
fria do recôncavo baiano, de 8 de agosto de 1865, Ana Néri,
olhou demoradamente o retrato dos filhos e dos irmãos que partiram para a
guerra. Vestida de luto fechado pela morte do marido, duas décadas antes,
deixou os olhos, insones, vagarem pelas brumas da aflição e da saudade.
Minutos depois, veio a centelha (divinamente humana) que resgataria toda
uma vida do tédio e da acomodação. Com as mãos trêmulas, mas a mente
impulsionada pela firme decisão dos obstinados, pegou a caneta e o papel.
Com tinta, pergaminho e sangue de mãe nas veias, escreveu a carta que iria
mudar radicalmente a vida dela e iniciar a construção de uma das mais
belas páginas do heroísmo brasileiro, forjada a ferro e fogo na Guerra do
Paraguai (1865-1870), a mais sangrenta luta armada da América do Sul.
O destinatário da correspondência foi o
presidente da Província da Bahia (equivalente a governador, na época),
Manuel Pinto de Souza Dantas: "Eu me chamo Ana Justina Ferreira Néri. Sou
mãe de três rapazes que acabaram de partir para a guerra. Eles eram tudo o
que tinha, pois o pai morreu quando eu estava com 29 anos. Não podendo
resistir à saudade deles, suplico-lhe que me deixe acompanhá-los. Prometo
que trabalharei como enfermeira em qualquer hospital e em defesa de todos
aqueles que sacrificarem sua vidas pela honra nacional e a integridade do
Império".
Dois dias depois veio a resposta à súplica de
uma mulher que foi, acima de tudo, mãe zelosa (não só dos filhos
biológicos, como também de uma legião de desconhecidos, arrebentados, por
fora e por dentro, nos hospitais de campanha). O presidente da Província
expediu ordens ao comandante do Conselho das Armas para que Ana Néri fosse
contratada como a primeira enfermeira brasileira na Guerra do Paraguai. O
comunicado oficial foi publicado, há 137 anos, na edição de 13 de agosto
de 1885 do Diário da Bahia. Com a aceitação, Ana Néri se transformaria na
primeira enfermeira voluntária do país, na "Patrona dos Enfermeiros" e,
mais ainda, na precursora da Cruz Vermelha no Brasil. A Ana não importava
se o ferido fosse amigo ou inimigo, todos eram homens e mereciam cuidados.
Contam-se que, mesmo correndo o risco de enfrentar a corte marcial e o
pelotão de fuzilamento, ela chegou a libertar oficiais paraguaios
submetidos a torturas para passarem informações ao inimigo.
A prática de cuidar dos doentes, Ana Néri
adquiriu em Salvador, com as irmãs da Ordem de São Vicente de Paulo,
considerado o "pai da caridade", pela Igreja Católica.
Com as freiras
vicentinas, aprendeu noções de higiene pessoal, primeiros-socorros, a
aplicar injeções, controlar hemorragias, dissecar feridas e fazer remédios
caseiros, como um a base de pimentão amarelo, potente antiinflamatório.
Porém, a habilidade ambulatorial que mais se revelaria útil nos campos de
batalha foi a de cauterização, feita com uma lâmina quente (geralmente
facão), que salvaria muitas pernas, braços e vidas.
Das vicentinas, a
dedicada aprendiz ganhou o título "Grande Irmã da Caridade Leiga". Ela
cuidava dos ferimentos físicos, mas foi também uma enfermeira de almas,
pelo poder de resgatar a auto-estima e a vontade de viver dos espíritos
estilhaçados pelos traumas, orgânicos e psicológicos, de uma guerra que
cobriu de sangue e de vergonha a história de quatro países da América
Latina: Brasil, Argentina e Uruguai, unidos na chamada Tríplice Aliança,
contra o Paraguai de Francisco Solano López.
Por sua índole pacifista, antes de decidir
acompanhar os filhos e os irmãos, Ana Néri refletiu muito sobre o sentido
da guerra.
"O que é a guerra? Por que jovens saudáveis se envolvem em
lutas de morte? Qual o princípio que move tudo isso? Quem mata na guerra
comete pecado ou é redimido por lutar em defesa da pátria? O patriotismo
pode resultar em crime ou é libertação? Herói é quem causa a maior
destruição ou aquele que está imbuído de missão divina? É do sangue
derramado que brota a salvação? Quem mata, mesmo na guerra, pode se
considerar feliz?".
São indagações filosóficas contidas no livro Ana Néri,
a brasileira que venceu a guerra, uma biografia romanceada feita pelo
jornalista e escritor José Louzeiro. Do romance, foi extraído o trecho da
carta ao presidente da Província, com sua carga de dramaticidade melhorada
pelo talento do artista, já que a correspondência autêntica é mais oficial
e menos objetiva.
Tendo entrado na história como nossa primeira
enfermeira voluntária, numa época em que ainda não havia profissional de
nível universitário nessa área, a destemida filha da cidade de Cachoeira,
no recôncavo baiano, foi quem mais contribuiu para que os brasileiros se
conscientizassem do quão importante é a Enfermagem como profissão.
Fonte: site do Conselho Federal de Enfermagem |